26/06/2012

galeria entrevista Rita Correia

Terça-feira é dia de entrevista na galeria portuguesa.
Saiba um pouco mais sobre a Rita Correia.


A Rita vive em Santarém. É Licenciada em Antropologia e tem 4 filhos.
Em 2005 começou a dedicar-se ao patchwork. Uma paixão que vem de criança, das "mantas de trapos" da sua trisavó.
É uma autodidata, apesar das noções de costura que teve quando era pequena, o resto veio por tentativa e erro, alguma teimosia e muita persistência. Gosta de criar e tem uma necessidade compulsiva de conjugar cores e padrões geométricos.
Nestes sete anos já fez centenas de peças, mantas de vários tamanhos e almofadas que encontraram caminho em várias casas espalhadas pelo país e pela europa. Aqui pode encontrar alguns dos artigos disponíveis no momento ou fazer uma encomenda de qualquer tamanho e tipo de quilt.
A Rita também organiza workshops, em resposta a muitos pedidos que foi recebendo e no próximo mês de julho o seu trabalho vai estar em exposição no café/galeria "Saudade" em Sintra. Um evento a não perder.

ritacor.com
about.me/rita.correia
ritacor.tumblr.com
flickr.com/photos/ritacor



A Rita é licenciada em Antrolopogia, chegou a exercer nessa área?
R: Não. Nunca trabalhei formalmente como antropóloga.
No entanto, com o passar dos tempos, tenho-me apercebido que a antropologia tem um papel central na minha vida, na maneira como encaro o mundo e desempenho o meu papel nele.
Sou um "animal social", gosto de observar e conhecer pessoas e de perceber o mundo à minha volta.

Para os leigos, o que é patchwork e o que é quilting?
R: De uma maneira simples e abreviada:
Patchwork é a técnica de juntar coisas umas às outras de forma a criar algo novo. É um termo normalmente associado aos tecidos, mas "qualquer conjunto formado de elementos heterogéneos ou díspares" (in Priberam) pode ser um patchwork.
A tradução mais aproximada para a língua portuguesa é a palavra "trapologia", mas no entanto limita o uso semântico da palavra apenas aos têxteis.
Quilting é um termo inglês que quer dizer "acolchoado".
É uma técnica associada ao patchwork clássico, que designa a técnica de pespontar uma peça de patchwork, seja para lhe dar mais resistência, seja por mero efeito decorativo.


A paixão vem desde criança mas só se iniciou nesta atividade depois de ser mãe. Porquê?
R: Desde pequena que me lembro de "brincar com trapos".
A minha bisavó era uma hábil modista/costureira e eu passava as férias de verão com ela. Além de correr atrás dos gatos e subir às árvores (sim, era um bocado maria-rapaz) passava largas horas no seu atelier de costura a brincar com os restos de tecidos.
Nessa altura era demasiado impaciente e irrequieta para estar sentada a costurar ou a bordar, preferia ir brincar para o quintal ou ir à pesca com o meu bisavô. Mas como passava a maior parte do tempo com a minha bisavó, e ela estava sempre a trabalhar, fui aprendendo nessa altura tudo aquilo que hoje sei. Uma das coisas que mais gostava de fazer era apanhar bocadinhos de tecido e guardá-los em saquinhos. Depois fazia mantas para as bonecas e colagens onde juntava os pedaços que mais gostava.
O patchwork não era novidade: tínhamos várias peças de patchwork feitas pela minha trisavó, entre mantas, almofadas e sacos. Tinha um fascínio especial por essas peças, para as quais gostava de ficar a olhar e tentar perceber como eram feitas.
Cresci rodeada de costureiras e máquinas de costura. Além do atelier da minha bisavó, que tinha aprendizas, o meu avô materno trabalhava na (extinta) Singer Portugal numa altura em que "cada lar português tinha uma máquina de costura".
Até hoje, a única máquina de costura que comprei é uma vulgar máquina portátil, adquirida para facilitar as minhas deslocações nos workshops que dou. Trabalho apenas com máquinas antigas (a mais antiga com quase 80 anos e a mais recente com 30) que herdei da minha bisavó. Recebi de presente a minha primeira máquina de costura, que ainda hoje uso, quando tinha 6 anos.
Talvez por toda esta proximidade com o mundo da costura e a omnipresença que ele tinha na nossa família, nunca lhe dei especial importância. Costurar era uma prática era normal, fazia parte dos dias.
Quando era pequena era a minha bisavó que fazia toda a roupa que eu vestia, e na minha adolescência passei eu a fazer, com a preciosa ajuda dela, algumas das coisas que usava.
Os meus filhos mais velhos (hoje com 16 anos) ainda tiveram todo um enxoval feito por ela. Seria o último que faria.
Quando engravidei do meu filho do meio, agora com 9 anos, ela já não costurava. Foi nessa altura, associado ao click da maternidade e do "síndrome do ninho", que fui recuperar tudo o que tinha aprendido e fiz as minhas primeiras mantas de patchwork.
Posteriormente, tive uma menina depois de 3 rapazes, e a vontade de fazer vestidos e lençóis de folhos tomou conta de mim :)
O facto de ter ficado em casa durante 2 anos a tomar conta dos filhos pequenos a tempo inteiro, foi o momento decisivo que me fez voltar às linhas e agulhas e começar a fazer coisas. Sou hiperativa e não consigo estar parada.
O patchwork impôs-se de imediato, em detrimento da costura "pura e dura", por ser uma forma de fazer coisas úteis e bonitas de se ver. Aliado à possibilidade de usar muitos dos tecidos que sempre fui acumulando ao longo dos tempos.
O apoio incondicional que a minha bisavó me deu nessa altura, encorajando-me e dando dicas técnicas, confesso que foi fundamental. Nessa altura, senti o "peso" de todo um legado familiar que quis preservar.
Na altura era apenas para consumo interno. Depois comecei a fazer coisas para as amigas que íam tendo filhos e me pediam.
Posteriormente, o vício do patchwork instalou-se definitivamente a percebi que das duas uma: ou começava a por as minhas peças à disposição de outros, ou tinha de parar.
A pouco e pouco a coisa foi crescendo, eu fui aprendendo cada vez mais e o patchwork, os tecidos e as cores instalaram-se definitivamente como parte integrante da minha vida.

Qual é o processo normal para a criação de uma peça? Começa pela escolha dos tecidos ou pela forma?
R: Depende de muitos fatores. O meu processo criativo é muito diverso.
Digamos que a minha "inspiração" vem de tudo, literalmente tudo, à minha volta. Pode ser uma imagem que vejo, pode ser uma música, pode ser uma história, pode ser uma circunstância muito própria da minha vida pessoal.
Tanto posso ficar com vontade de trabalhar/explorar uma forma específica de patchwork, como ficar fixada numa determinada cor ou tecido e começar tudo a partir daí.
Mas a escolha dos tecidos é fulcral e determinante em todo o meu trabalho.
As ideias são o embrião e os tecidos o ponto de partida.
Às vezes desenho as peças que idealizo, mas outras vezes começo a cortar e a coser sem nenhum plano específico.
Muitas mantas vão ganhando vida própria à medida que as vou fazendo, e acabam até por ser bem diferentes do que inicialmente tinha pensado.


Como é que começou a divulgar o seu trabalho?
R: Como toda a gente na era da internet: através do meu blogue.

Qualquer pessoa pode frequentar um workshop, mesmo que nunca tenha pegado numa agulha?
R: Depende. Há workshops para iniciados, mesmo que nunca tenham pegado numa agulha, e outros para quem já tem conhecimentos básicos de costura.

Como é que surgiu esta exposição que vai acontecer em Sintra?
R: Conheci a Mary, proprietária do Saudade, através da internet, há alguns anos atrás.
Tal como muitas outras pessoas, acompanhei através da internet, o nascimento do projeto Saudade, tal como ela tem vindo a acompanhar o meu trabalho, sendo ela própria uma apaixonada pelo mundo do patchwork.
No início deste ano, a Mary propôs-me fazer uma exposição lá, à semelhança de outros projetos artísticos e artesanais que tem divulgado, e eu aceitei de imediato.
Expor o meu trabalho fora dos circuitos normais onde me encontro sempre foi uma vontade da minha parte. Espero que esta seja a primeira de muitas vezes.


Chegou a fazer coleções de roupa para criança com o nome Dressing Fairytales. Este projeto acabou?
R: O projeto Dressing Fairytales nasceu da minha vontade de fazer roupa para crianças, porque a fazia para os meus filhos mais pequenos, e da minha obsessão por tecidos com histórias infantis, que tenho vindo a colecionar ao longo do tempo.
O projeto não acabou, digamos que está em hibernação.
O que se passa é que fazer roupa é um processo muito mais complexo e consumidor de tempo do que o patchwork. E os meus dias, embora muitas vezes não pareça, têm apenas 24 horas ;)
No ano passado a minha vida pessoal e profissional teve várias mudança e o Dressing Fairytales foi umas coisas que tive de deixar de lado, em nome de outras prioridades.
Mas vai voltar!

Também se dedica à temática da gravidez e parto. É uma das doulas certificadas da Associação Doulas de Portugal. O que é exatamente uma doula?
R: "Uma doula é geralmente uma mulher com experiência de maternidade, que está ao lado da mãe durante o seu parto, ajudando-a a sentir-se segura de modo a que ela consiga mais facilmente dar à luz.
A doula é nos dias de hoje uma profissional da humanização do parto, que vê o parto como um evento normal e pleno de significado na vida das mulheres, e o compreende como um processo fisiológico, que não pode ser desligado das dimensões física, psicológica, sexual, afectiva e espiritual do ser feminino." (definição do site).
Não exerço profissionalmente o papel de doula há cerca de 2 anos, precisamente pelos constrangimentos de tempo a que tenho de me obrigar para conciliar todas as facetas da minha vida, mas sou e sempre serei uma ativista acérrima dos direitos sexuais e reprodutivos. E nesse campo, trabalho todos os dias.



Organiza os seus dias ou trabalha por instinto?
R: Organizo os meus dias, de outra forma era impossível conciliar todas as coisas distintas a que me dedico.
Trabalho fora de casa 2 dias por semana. O meu emprego "formal" passou a part-time há 4 anos atrás, quando o meu filho do meio entrou para a escola primária e senti necessidade de estar mais disponível para o acompanhar.
Dos outros 3 dias da semana, um é dedicado à costura "pura e dura", outro a atualizar blogue, fotografias e trabalho burocrático, e outro ao Cineclube de Santarém, projeto a que me dedico de alma e coração desde há 3 anos, onde tenho o privilégio de desempenhar, entre outras, uma profissão em vias de extinção - projecionista.
Os fins de semana são dedicados a tudo um pouco: família, amigos, filmes, costura, trabalho doméstico, dolce far niente... a única coisa que muda é a ausência de horários a que os dias de semana obrigam.
Mas funciono muito por impulso, quando tenho uma ideia não descanso enquanto não a concretizo e aproveito todos os minutos disponíveis para o fazer.

fotografia de Rui Miguel Félix

Tem projetos para um futuro próximo?
R: A minha vida é todo um projeto apaixonante que vivo a tempo inteiro :)

Para além de quilting & patchwork, o que mais gosta de fazer?
R: Sou viciada em cinema e fotografia. Não consigo passar uma semana sem ver um filme e ando sempre com a máquina fotográfica comigo.
Sou uma leitora compulsiva, daquelas que não consegue adormecer sem ler umas linhas. Sou dependente de música: no computador, no ipod, no velho gira-discos ou ao vivo e a cores.
Toda a gente cá em casa toca um instrumento musical e o meu luxo, infelizmente cada vez mais incomportável,  são os concertos.
Gosto, como toda a gente, de passear.
Gosto de fazer puzzles e palavras cruzadas, gosto de escrever, gosto de praia, gosto de cozinhar, gosto de estar com os amigos, gosto de rir, gosto de dançar, gosto de abraçar aqueles de quem gosto.



E, no dia-a-dia, o que menos gosta de fazer?
R: Do som do despertador pela manhã. Sou daquelas pessoas que adia sempre um bocadinho mais o momento de deixar dos lençóis.

Sugira alguém português que, para si, seja inspirador.
R: Ana Hatherly. A sua obra pluridisciplinar abarca de forma sublime tudo aquilo que mais gosto: poesia, artes plásticas e cinema.

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