01/05/2012

galeria entrevista Rosa Pomar

Terça-feira é dia de entrevista na galeria portuguesa.
Saiba um pouco mais sobre a Rosa Pomar.


Foi sobre a Rosa que escrevi o primeiro post da galeria portuguesa. Não foi por acaso. É verdadeiramente inspirada e inspiradora. Leiam a entrevista.

Nasceu em 1975, tem duas filhas e mora em Lisboa.
Não terminou a tese de mestrado em História Medieval que estava a preparar enquanto estudava Ilustração no Ar.Co mas não desistiu de voltar a ela um dia.
Trabalha muitas horas por dia mas não sabe o que responder quando lhe perguntam que profissão tem. "Mãe blogger que faz bonecos e outras coisas de pano" seria o mais acertado.
Foi bus-lady de um colégio chique e bolseira de investigação científica, deu aulas e fez produção de exposições.
Viveu dois anos no campo e três meses em Nova Iorque, foi aqui que nasceu o seu blogue, em 2001, chamado @ny que mais tarde passou a chamar-se A Ervilha Cor de Rosa.
Desde que se lembra que gosta de coser, tricotar, bordar e tecer. Os bonecos nasceram em 2004, depois da maternidade. Partilhou no seu blogue o primeiro boneco, e o segundo, e o terceiro, e recebeu emails e comentários de incentivo que mudaram a sua vida. Não há dois bonecos iguais. Cada um é decorado à mão com veludo de lã e galões bordados antigos que coleciona há muitos anos, e todos têm uma etiqueta de pano única e numerada.
Depois dos bonecos apareceram as mantas, sacos, pires de pano e muitas outras coisas, como por exemplo os slings (porta-bebés) que nasceram com a sua filha mais nova. Fez um e depois outro e em pouco tempo estava a receber encomendas. Todos os slings são reversíveis e distinguem-se pelos tecidos que usa – sobretudo tecidos tipicamente portugueses, tecidos africanos e alguns outros, escolhidos a dedo, de que gosta particularmente.
Seguiu-se a retrosaria on-line e depois a loja própria. A Retrosaria está na Rua do Loreto, 61 - 2.º Dto, em Lisboa, de Terça a Sábado das 10 às 19h.
A Rosa continua a investigar a cultura popular e publica posts sobre a história têxtil. Nos Açores nasceu a Lã em tempo real, um projeto a ganhar forma no cruzamento do seu trabalho com o do realizador Tiago Pereira.

aervilhacorderosa.com
retrosaria.rosapomar.com
rosapomar.com


Começou o seu blogue em 2001. Com que propósito é que o criou?
R: Em 2001 o universo dos blogs era totalmente diferente do que é hoje. Tinha uma página pessoal associada ao meu primeiro site, o Páginas de História, e cada vez que queria atualizar essa página tinha de re-editar o código html. Quando descobri essa coisa nova chamada blog quis logo experimentar. Isso coincidiu com uma estadia de alguns meses em Nova Iorque, pelo que o blog começou por funcionar como um diário de viagem.


Em que altura é que percebeu que tinha uma legião de fãs a segui-la?
R. Bem, legião não sei se diria... A Ervilha Cor de Rosa começou a ter bastante visibilidade a partir de 2004, quando comecei a vender os primeiros bonecos de pano. Isso coincidiu com o primeiro boom da blogosfera em Portugal.

A verdade é que inspirou muita gente a descobrir os seus talentos e a trabalhar de casa. Sente-se orgulhosa?
R: É sempre bom encontrar posts alheios que dizem comecei o meu blog depois de ter visto a Ervilha Cor de Rosa. Sobretudo quando quem escreve não só assume essa inspiração como desenvolveu um trabalho com identidade própria. Sei que há uma espécie de geração de bloggers que de certa forma nasceram da Ervilha Cor de Rosa, da mesma forma que eu tive a Mariana Newlands ou a Claire Robertson como referências iniciais. É como se o blog tivesse sido em grande medida a porta de entrada do fenómeno dos crafts em Portugal, fenómeno esse que depois ganhou autonomia, claro, e mil e uma ramificações, da multiplicação de mercados do chamado artesanato urbano ao saudável reflorescer das pequenas retrosarias um pouco por todo o país.


Os seus bonecos, chamam-se só bonecos. Nunca lhes deu um nome. Porquê?
R: Sempre achei que era condicioná-los demasiado à partida. Os bonecos que me atraem mais, sejam tradicionais ou industriais, são sempre os mais simples, sem expressões ou feições muito marcadas, aos quais é possível atribuir durante a brincadeira diferentes personalidades ou estados de espírito.

A Rosa é provavelmente uma das pessoas mais plagiadas da blogosfera. isso incomoda-a?
R: Claro. Com o tempo fui percebendo que a maioria das pessoas que o faziam tinham um perfil semelhante: eram pessoas com muito pouca ou nenhuma experiência, pouquíssimas referências e, naturalmente, nenhum sentido de ética. Em geral as situações evoluíam de uma de duas maneiras possíveis: ou desistiam porque fazer bem dá efectivamente trabalho e porque os plágios são facilmente reconhecíveis (a net é este pau de dois bicos, em que, por um lado, as pessoas estão muito vulneráveis a serem copiadas mas, por outro, quem copia é facilmente denunciado), ou o trabalho acabava por um salto qualitativo: da cópia ou inspiração abusiva várias pessoas evoluíram positivamente para um trabalho com personalidade própria. Hoje em dia aborreço-me sobretudo com as pessoas que constroem percursos decalcados de ideias e conceitos que vão buscar à Ervilha Cor de Rosa, mas a minha atitude continua a ser a mesma: antes ser copiado do que copiar. Por outro lado, há situações em que a cópia se torna tendência e que isso tem um lado curioso ou mesmo positivo, como aconteceu por exemplo com as séries de fotografias de mosaico hidráulico (e também azulejo) que fui publicando ao longo dos anos no blog. Estas imagens, que foram sendo destacadas em vários sites nacionais e estrangeiros, funcionaram como uma espécie de meme e foi-se tornando cada vez mais comum encontrar fotografias tiradas da mesma forma, com o mesmo ângulo e pormenores, em diversos blogs. O lado mais positivo disto prende-se com o feedback que tenho recebido de várias pessoas que nunca tinham reparado ou valorizado este tipo de pavimento e passaram a olhar para ele de outra maneira, preservando ou restaurando o das suas casas em vez de o substituírem.


Mostra muitas vezes coisas antigas que tem guardadas. É daquelas pessoas que guarda tudo?
R: Já fui muito mais. Às vezes fotografar as coisas permite-me libertar-me delas e ficar só com as imagens. Mas é verdade que tenho uma quantidade de tecidos antigos acumulada maior do que é verosímil que venha a conseguir coser nos próximos tempos.


Continua a querer voltar à História Medieval ou já faz parte do passado?
R: Não creio que volte a fazer investigação concretamente em História Medieval, mas as ferramentas e conhecimento que trouxe dos anos que dediquei à investigação em História sempre me foram úteis e ainda mais nos últimos anos, em que me tenho dedicado cada vez mais ao levantamento e estudo das práticas tradicionais em torno dos têxteis portugueses.


Estudou ilustração. Gostava de fazer ilustrações de livros infantis?
R: Já há muitos anos que não me ocorre fazê-lo, mas houve uma altura em que pensava nisso. Julgo que nunca seria uma ilustradora mesmo mesmo boa, por isso prefiro apreciar o trabalho dos que o são.


O seu trabalho é apreciado e elogiado em todo o lado. E já conseguiu conquistar muita coisa. Ainda vibra com pequenas vitórias profissionais?
R: Claro! Quando deixar de vibrar é sinal de que tenho de mudar de ramo. Nunca trabalhei senão no que gosto e faço questão de que continue sempre a ser assim.

Vem de uma família de "mãos de fada". As suas filhas também lhe seguem as pisadas?
R: A minha filha mais velha adora coser à máquina. Aprendeu com sete anos, num dia de férias em que a "abandonei" com a máquina e um cesto de retalhos depois de uns minutos em que lhe expliquei basicamente o que é que tinha de fazer para garantir que não se magoava. A mais nova passou o ano a fazer tricot com os dedos... As crianças absorvem sempre com facilidade aquilo que as rodeia, como eu aprendi com as pessoas à minha volta. Se esse interesse se mantém ou desvanece é que nunca se pode prever.



A Rosa faz mil e uma coisas. Em casa descontrai ou está sempre a trabalhar?
R: Muitas vezes descontraio a trabalhar. O que é cansativo são as obrigações, burocracias e tarefas repetitivas, não o trabalho criativo ou a concretização de um projeto que se quer levar a bom porto.

Organiza os seus dias ou trabalha por instinto?
R: O trabalho da Retrosaria exige organização, mas em geral trabalho avançando com os projetos que tenho em curso consoante a minha motivação, sem pensar se é domingo ou terça-feira.



Tem projetos para um futuro próximo?
R: O mais premente neste momento é a conclusão de um livro sobre história e técnica das malhas em Portugal, que estou a escrever.

Para além da sua atividade profissional, o que mais gosta de fazer?
R: A maior parte das coisas enquadram-se mais ou menos diretamente no que considero que é o meu trabalho. Vou daqui a uns dias para Miranda do Douro acompanhar um workshop organizado por uma associação local dedicado ao ciclo da lã. Vão ser dias de trabalho intenso a fazer o que mais gosto, não se pode pedir mais.

E, no dia-a-dia, o que menos gosta de fazer?
R. Resolver problemas burocráticos e gastar tempo com tarefas domésticas.

Sugira alguém português que, para si, seja inspirador.
R: Tiago Pereira.


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